Crise de vacinas escancara falhas do governo federal na imunização infantil
SAÚDE | Estudo da CNM aponta que um terço dos municípios sofre com desabastecimento de imunizantes; varicela está entre os mais críticos
Apesar do discurso otimista do Ministério da Saúde, o Brasil segue mergulhado em uma crise de desabastecimento de vacinas, afetando principalmente crianças e colocando em risco conquistas históricas da saúde pública. A terceira edição do estudo “Falta vacina para proteger as crianças brasileiras”, da Confederação Nacional de Municípios (CNM), revela que 33,7% dos 1.490 municípios pesquisados enfrentam falta de imunizantes, com destaque para a escassez da vacina contra a varicela, ausente em 32% das cidades — em algumas, a situação já se arrasta há mais de três meses.
A cobertura vacinal contra varicela despencou para 74,46%, longe da meta de 95%, expondo a fragilidade do sistema de imunização nacional. A vacina tetraviral, que protege também contra sarampo, caxumba e rubéola, está em falta em 16% dos municípios, confirmando o colapso de uma estrutura que já foi referência global.
O levantamento ainda revela que o imunizante contra a Covid-19 continua indisponível em parte do país: faltam doses para adultos em 9% dos municípios e para crianças em 8%. A CNM relaciona diretamente essa escassez ao aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) — 18,6% dos 50.090 registros em 2025 são de Covid-19, o que indica o risco da negligência com a vacinação em plena circulação de vírus respiratórios.
Minas Gerais simboliza o colapso: 51% dos municípios mineiros enfrentam falta de vacinas e surtos de SRAG, com 4.349 casos registrados apenas entre crianças de 1 a 9 anos. Um cenário alarmante, que exige mais do que justificativas burocráticas.
O Ministério da Saúde, em defesa protocolar, responsabiliza a cadeia de distribuição — da pasta para os estados, dos estados para os municípios — e afirma manter os estoques centrais regulares. A única exceção, segundo o governo federal, seria a vacina contra varicela, afetada por “limitações na capacidade produtiva” do fornecedor. Mas a retórica oficial entra em choque com a realidade nos municípios, onde também faltam vacinas contra dengue, meningite meningocócica e poliomielite.
Além da falta de imunizantes, problemas logísticos se acumulam: em 32% das cidades, as vacinas chegam com prazo de validade curto demais, dificultando a aplicação em tempo hábil e levando ao desperdício. Já em 27% dos municípios, a baixa adesão da população compromete a efetividade das campanhas — reflexo direto da falta de confiança e da ausência de uma comunicação pública eficiente.
O diretor do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti Fernandes, afirma que o país “melhorou” em relação ao passado e que a “regra dos seis meses de validade” é respeitada. Entretanto, a alegação soa como uma tentativa de minimizar uma crise que, ao contrário de melhorar, aprofunda-se com o passar dos meses. A “melhora” não se traduz em dados: o Brasil segue com baixa cobertura vacinal, surtos reemergentes e imunizantes essenciais em falta.
A política de vacinação, que deveria ser tratada como prioridade nacional, tem sido tratada com improviso, omissão e falta de coordenação. Em vez de ações concretas para reverter esse quadro, o governo federal se apega a explicações técnicas e terceiriza responsabilidades. O resultado: crianças brasileiras vulneráveis, doenças eliminadas voltando à cena, e um sistema de saúde pública cada vez mais pressionado.

