Cachoeira do Sul enfrenta epidemia de dengue com 847 casos confirmados e quatro mortes
SAÚDE | Baixa adesão da população aos cuidados preventivos e circulação dos quatro sorotipos agravam situação no município
Cachoeira do Sul soma 847 casos confirmados de dengue em 2025, com outros 1.400 ainda sob investigação e quatro mortes já registradas, todas entre idosos. O cenário, que acompanha uma tendência nacional, integra a maior epidemia de dengue já registrada nas Américas, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o infectologista e diretor de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan, José Moreira, a situação atual é agravada pela circulação simultânea dos quatro sorotipos do vírus da dengue, fenômeno incomum e mais perigoso.
De acordo com especialistas, o aumento recorde de casos tem origem em múltiplos fatores: aquecimento global, urbanização desordenada, baixa cobertura vacinal, resistência dos mosquitos aos produtos de controle e, principalmente, a atuação ainda limitada de medidas preventivas por parte da população.
“As mudanças climáticas favoreceram a proliferação do vetor. Invernos mais quentes e verões com temperaturas recordes tornam o ambiente ideal para reprodução do Aedes aegypti. Além disso, os mosquitos têm desenvolvido resistência aos inseticidas e larvicidas mais comuns”, destaca o médico.
Fatores locais potencializam crise
Em Cachoeira do Sul, a falta de envolvimento da população em ações simples, como a eliminação de criadouros, é apontada como um dos principais gargalos para o controle da epidemia. “A pulverização só tem efeito quando o ambiente está limpo. O morador precisa fazer a sua parte para que o coletivo seja protegido”, reforça a secretária municipal da Saúde, Camila Nunes Barreto.
Apesar dos mutirões realizados nos bairros e do esforço das equipes da Vigilância em Saúde, as ações não têm sido suficientes para conter o avanço da doença. A baixa adesão a práticas básicas, como o descarte adequado de lixo e a limpeza de áreas externas, contribui diretamente para o aumento de focos do mosquito.
Números que preocupam
A evolução dos casos de dengue em Cachoeira do Sul mostra um agravamento especialmente a partir de 2022. Após um recuo significativo em 2023, o número de casos voltou a crescer em 2024 e atingiu novo pico em 2025.
Linha do tempo da dengue no município:
- 2020: 3 notificados / 1 confirmado / 0 óbito
- 2021: 11 notificados / 3 confirmados / 0 óbito
- 2022: 1.649 notificados / 1.151 confirmados / 3 óbitos
- 2023: 278 notificados / 13 confirmados / 0 óbito
- 2024: 1.728 notificados / 1.177 confirmados / 1 óbito
- 2025 (até junho): 2.640 notificados / 847 confirmados / 4 óbitos
Ações e cronograma do combate à dengue
Desde janeiro, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) tem ampliado seus esforços com pulverizações, aplicação de larvicidas, mutirões e campanhas educativas. O combate foi reforçado com apoio do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS) e com a criação do Centro de Operações de Emergência (COE).
As medidas também incluem:
- Ampliação do atendimento médico com turno estendido em duas unidades de saúde;
- Fiscalização de terrenos baldios e aplicação de multas;
- Atividades educativas em escolas e espaços públicos;
- Instalação de armadilhas para captura do mosquito;
- Campanhas de orientação específicas para instituições que atendem idosos;
- Início da vacinação contra a dengue em crianças de 10 a 14 anos.
Material impresso e novo mutirão
Nesta quinta-feira (5), a SMS realiza novo mutirão contra a dengue no Bairro Tibiriçá. As ações incluirão distribuição de material impresso com orientações práticas de combate ao mosquito. A diretora da Vigilância em Saúde, Andréa Santos, reforça que o controle vetorial mais eficaz ainda é o mecânico: “Cada morador precisa cuidar do seu espaço. A remoção dos criadouros é o método mais efetivo e deve ser constante”.
Desafios e perspectivas
Com quatro mortes já confirmadas em 2025 e um número crescente de notificações, Cachoeira do Sul enfrenta um dos seus maiores desafios em saúde pública nos últimos anos. A eficácia das ações depende diretamente da mobilização coletiva. O combate à dengue, alertam as autoridades, precisa ultrapassar os limites do poder público e tornar-se um compromisso de toda a população.

