31 de janeiro de 2026

Crise se agrava no IBGE após lançamento de mapa-múndi invertido com o Brasil no centro

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IBGE | Servidores acusam Pochmann de promover desvio institucional e uso político do instituto

A crise interna no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ganhou novo capítulo com o lançamento de um mapa-múndi oficial em que o Brasil aparece no centro da imagem, com o Hemisfério Sul no topo. A publicação, batizada de “mapa invertido”, foi apresentada pelo presidente do órgão, Marcio Pochmann, como uma proposta simbólica de reposicionamento geopolítico, mas provocou forte reação dos servidores e aprofundou o mal-estar entre a direção e as áreas técnicas do instituto.

A executiva nacional do Assibge-SN, sindicato que representa os trabalhadores do IBGE, repudiou a iniciativa, classificando-a como um produto “sem construção técnica” e que “parece atender à agenda pessoal do presidente Marcio Pochmann”. Embora reconheça que o mapa não apresenta erros cartográficos, o sindicato critica o processo de lançamento e a ausência de participação das equipes técnicas responsáveis por geociência e representação espacial.

“O que avaliamos como bastante problemático é o lançamento de um produto que não foi construído pelas áreas técnicas, não teve um lançamento adequado e parece atender a agenda pessoal do presidente”, disse a executiva, em nota enviada ao sistema Broadcast.

Mais contundente foi o manifesto divulgado pelo núcleo sindical dos servidores da unidade Chile, no centro do Rio de Janeiro — a maior do IBGE, que reúne cerca de 700 trabalhadores das principais diretorias do órgão. O documento afirma que a iniciativa compromete a credibilidade histórica do instituto, por se tratar de “um gesto sem respaldo técnico reconhecido pelas convenções cartográficas internacionais”.

“Trata-se de uma encenação simbólica que compromete a credibilidade construída pelo IBGE ao longo de décadas de trabalho sério, imparcial e respeitado globalmente. Adoção de padrões gráficos não reconhecidos confunde a educação, prejudica comparações internacionais e deslegitima produtos oficiais”, afirma o texto.

Os servidores apontam ainda que a publicação do mapa invertido se soma a uma série de decisões da atual gestão que violariam os princípios constitucionais da administração pública — entre eles a finalidade administrativa, impessoalidade e moralidade. Em janeiro do ano passado, a publicação do relatório Brasil em Números 2024 já havia causado desconforto por incluir um prefácio elogioso assinado pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, o que foi interpretado como uso político de uma publicação técnica.

“O Brasil não precisa estar no centro do papel. Precisa estar no centro da honestidade técnica, da responsabilidade pública e do compromisso com a verdade”, conclui o manifesto, que encerra com a frase: “Não ao mapa da vaidade. Sim à ciência, à integridade e à maturidade institucional”.

O que diz o IBGE

Em nota divulgada na quinta-feira (8), o IBGE defendeu o novo mapa como parte de uma estratégia para “reflexão sobre o Sul Global” e o papel geopolítico do Brasil. A instituição ressalta que a publicação tem versões em português e inglês, e que o mapa destaca os países dos Brics, do Mercosul, de língua portuguesa e com o bioma amazônico, além de marcar as cidades do Rio de Janeiro, Belém e Ceará — sedes de fóruns internacionais nos próximos meses.

“O lançamento é feito em ano que o Brasil tem ativa participação nos debates e perspectivas do Sul Global e do cenário mundial, em especial por presidir o BRICS e o Mercosul, além de sediar a COP 30”, afirmou o órgão, que disponibilizou a nova versão para compra em seu site oficial.

A escalada das críticas internas e externas levanta dúvidas sobre o futuro da presidência de Pochmann no IBGE, especialmente diante do acúmulo de embates com o corpo técnico — considerado o principal ativo de credibilidade da instituição.

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