Milei articula bloco liberal na América Latina e aposta em confiança interna para mudar hábitos financeiros dos argentinos
GUERRA AO SOCIALISMO | Presidente argentino afirma que iniciativa reúne dez países e mira combate ao socialismo, enquanto governo testa credibilidade com anistia fiscal e estímulo à bancarização
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou que trabalha com outros países da América Latina na formação de um novo bloco regional alinhado ao que chamou de “ideias da liberdade”, com o objetivo declarado de combater o socialismo. A declaração foi dada em entrevista na quarta-feira (31).
Segundo Milei, o grupo ainda não tem nome definido, mas já contaria com a participação de dez países. O presidente argentino não revelou quais nações integram a iniciativa, mas afirmou, em entrevista à CNN, que o projeto seguirá avançando.
Ao comentar a proposta, Milei disse que o bloco pretende enfrentar o que classificou como “câncer do socialismo”, incluindo o chamado “socialismo do século 21” e o movimento “woke”, termo utilizado por setores conservadores para criticar pautas associadas à esquerda.
Questionado sobre vitórias recentes de candidatos de direita e centro-direita na região, como José Kast no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia e Daniel Noboa no Equador, Milei afirmou que a América do Sul estaria passando por um processo de mudança política. “Parece que a região acordou do pesadelo do socialismo do século 21. As pessoas estão descobrindo que efetivamente é uma farsa”, declarou.
O presidente citou afinidade política com líderes latino-americanos como Santiago Peña, do Paraguai, Nayib Bukele, de El Salvador, e Nasry Asfura, recém-eleito em Honduras. Fora da região, Milei também já manifestou interesse em estreitar relações com figuras como Donald Trump, dos Estados Unidos, Benjamin Netanyahu, de Israel, Viktor Orbán, da Hungria, e Giorgia Meloni, da Itália.
Durante a visita da primeira-ministra italiana à Argentina, em novembro de 2024, Milei defendeu a criação de “uma aliança de nações livres, unidas contra a tirania e a miséria”. O presidente argentino também está confirmado no Fórum Econômico Mundial, que ocorre entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Davos, na Suíça.
Paralelamente à agenda internacional, o governo Milei enfrenta um desafio interno histórico: restaurar a confiança dos argentinos no sistema financeiro. Após décadas de crises econômicas, a população do país desenvolveu o hábito de guardar dinheiro fora dos bancos, prática que inclui desde esconder recursos em casa até casos emblemáticos de valores ocultados em conventos, com ajuda de religiosas.
Nesse contexto, Milei conseguiu convencer cerca de 300 mil argentinos a declarar mais de US$ 20 bilhões por meio de um programa de anistia fiscal. A iniciativa estabeleceu que depósitos acima de US$ 100 mil devem permanecer intocados em contas bancárias ou de corretoras até 1º de janeiro de 2026, sob pena de cobrança de imposto. Após esse prazo, os titulares das chamadas contas CERA poderão movimentar livremente os recursos.
A medida é considerada um teste de confiança no governo e pode representar um ponto de inflexão nos hábitos de poupança da população. Em outubro, uma forte volatilidade no mercado levou argentinos a correrem para a compra de dólares, temendo uma reviravolta política antes das eleições legislativas.
O cenário, no entanto, começou a mudar após a vitória do partido de Milei nas eleições legislativas e o apoio obtido no Congresso para aprovar o primeiro orçamento anual em anos. A inflação apresentou queda significativa durante seu mandato, e rumores sobre uma possível desvalorização do peso perderam força.
Como reforço à estratégia, o Congresso aprovou a chamada Lei de Inocência Fiscal, que eleva substancialmente os limites mínimos para que a autoridade tributária argentina possa processar cidadãos por sonegação fiscal e outros crimes financeiros. O objetivo é incentivar o uso de recursos não declarados sem o temor de questionamentos legais no futuro.
“Há quase US$ 200 bilhões debaixo de colchões que poderiam estar rendendo juros e gerando crédito”, afirmou o ministro da Economia, Luis Caputo, em conferência com investidores locais em dezembro. “Não faz sentido, mas a maioria dos argentinos faz isso — e isso precisa mudar.”
Dados indicam que os depósitos em dólares do setor privado no sistema financeiro mais que dobraram desde a posse de Milei, há dois anos, alcançando US$ 36 bilhões — o maior volume desde a corrida bancária de 2002. Apesar do avanço, o montante ainda representa apenas uma fração dos cerca de US$ 204 bilhões em dinheiro vivo que os argentinos mantêm fora dos bancos, segundo relatório do banco central divulgado no ano passado.

