Conselho Tutelar havia encaminhado documento ao Ministério Público, Polícia Civil e Judiciário apontando possíveis situações de risco envolvendo os quatro filhos de Patrícia Cristina Pereira
Meses antes de Patrícia Cristina Pereira, 31 anos, e da filha Karolayne Cristina Costa, 13, serem assassinadas na zona rural de Candelária, órgãos da rede de proteção já haviam sido acionados em relação à família. O Conselho Tutelar recebeu relatos da comunidade e encaminhou ao Ministério Público, à Polícia Civil e ao Judiciário um documento apontando possíveis situações de risco envolvendo os quatro filhos de Patrícia.
O ofício, datado de 11 de setembro, registrava a necessidade de avaliação e de providências relacionadas à guarda das crianças. Segundo o documento, a situação apresentava elementos que poderiam representar risco à integridade física, psíquica, moral e sexual dos envolvidos.

As preocupações aumentaram depois que Patrícia abriu um bar ao lado da residência onde morava, na localidade de Passa Sete, a aproximadamente oito quilômetros do centro de Candelária. A abertura do estabelecimento está documentada em 30 de abril. Denúncias encaminhadas ao Conselho Tutelar e ao Disque 100 apontavam que o local poderia estar sendo utilizado para prostituição e relatavam a presença de Karolayne junto da mãe.
O Conselho Tutelar solicitou uma avaliação urgente da situação familiar e a adoção de medidas relacionadas à guarda dos filhos.
Ministério Público abriu expediente antes das mortes
O Ministério Público confirmou o recebimento do documento. De acordo com o promotor Martin Albino Jora, um expediente para acompanhamento da situação da família foi instaurado em 11 de setembro, antes do assassinato de Patrícia e Karolayne.
Após as mortes, foram solicitadas diligências complementares à rede de proteção para verificar aspectos relacionados à convivência familiar, à saúde e ao bem-estar das crianças.
A prioridade, segundo o Ministério Público, é identificar entre os familiares alguém que tenha condições e disposição para assumir provisoriamente a guarda dos filhos. Caso isso não seja possível, poderá ser avaliada a necessidade de acolhimento institucional.
O Conselho Tutelar informou que continua acompanhando a situação e à disposição da comunidade, mas não forneceu detalhes em razão do sigilo necessário à proteção das crianças.
O Judiciário também confirmou ter recebido um e-mail encaminhado pelo Conselho Tutelar sobre a família, posteriormente remetido ao Ministério Público. Segundo as informações repassadas, não havia registro de requerimento no sistema eletrônico.
Polícia realizou operações antes do crime
A Polícia Civil informou que irá verificar o recebimento do ofício encaminhado pelo Conselho Tutelar. A corporação também confirmou que, antes das mortes, foram realizadas duas operações conjuntas com a Brigada Militar e o Conselho Tutelar em casas noturnas de Candelária.
As ações ocorreram em maio e em 25 de setembro, dois dias antes de Patrícia e Karolayne serem encontradas mortas. O objetivo era verificar possíveis situações de exploração sexual de crianças e adolescentes. Conforme a Polícia Civil, nenhuma irregularidade foi identificada nas duas operações.
Crianças estão sob cuidados de familiares e responsáveis
Patrícia era mãe de quatro filhos. Os dois mais novos, meninos gêmeos de nove meses, estavam sob os cuidados de uma babá no dia do crime e permanecem atualmente sob guarda provisória da avó paterna.
A filha de 10 anos vive com uma babá desde os dois anos de idade. A mulher, porém, não possui a guarda legal da criança.
No momento, a rede de proteção acompanha a situação para definir as medidas consideradas adequadas para garantir a segurança e o bem-estar dos irmãos.
Quem era Karolayne
Karolayne era a filha mais velha de Patrícia e tinha 13 anos. Ela cursava o 8º ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual de Ensino Fundamental Professor Dinarte, na localidade de Passa Sete, onde frequentava as aulas no turno da tarde.
Segundo relatos de pessoas próximas, a adolescente passava parte do tempo na casa da mãe, mas também costumava permanecer alguns dias na residência de amigos.
O pai de Karolayne permaneceu preso durante anos após ser condenado pelo duplo homicídio dos avós da adolescente, ocorrido em 2012. Ele e Patrícia terminaram o relacionamento em 2015.
Escola fez homenagem à estudante
Após a morte da adolescente, a comunidade escolar realizou uma homenagem. A equipe diretiva, professores e estudantes participaram da atividade, que incluiu o plantio de girassóis e a instalação de uma placa com a mensagem: “Cultivamos lembranças, amizade e carinho”.
A diretora da escola, Mara Regina Steindorff, destacou a convivência da adolescente com os colegas.
“Tinha vários amigos na escola, muitos deles seus próprios colegas de turma, com quem compartilhava momentos de convivência, amizade e aprendizado”, afirmou.
Relembre o crime
Patrícia Cristina Pereira, 31 anos, e Karolayne Cristina Costa, 13, foram encontradas mortas dentro do quarto da residência onde moravam, no interior de Candelária.
As duas foram localizadas na tarde de terça-feira (29). A investigação aponta que o crime provavelmente ocorreu entre a madrugada de domingo e a segunda-feira (28), possivelmente enquanto mãe e filha dormiam.
Segundo a Polícia Civil, as vítimas foram assassinadas a facadas. A suspeita é de que o autor tenha arrombado a porta da cozinha para entrar na residência e utilizado o mesmo acesso para fugir.
A Brigada Militar foi acionada pela cuidadora dos outros filhos de Patrícia, que comunicou a situação às autoridades.
O delegado Paulo César Shirrmann, responsável pela investigação, informou que dados extraídos dos celulares das vítimas e imagens de câmeras de segurança deverão auxiliar na identificação da dinâmica do crime e de seus responsáveis.
Até o momento, três suspeitos são investigados, mas ninguém foi preso. A hipótese de feminicídio também não foi descartada.
A investigação conta com a participação da Polícia Civil e da Brigada Militar de Candelária, além do apoio da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Santa Cruz do Sul.
O Ministério Público informou que aguarda a conclusão da investigação policial. Com a confirmação da autoria e da materialidade, serão avaliadas as medidas cabíveis perante o Judiciário, incluindo eventual pedido de prisão preventiva e, caso existam elementos suficientes, o oferecimento de denúncia.